Cidade dos Ossos - Cassandra Clare - Os Instrumentos Mortais #1

Oi pra você!

2020 começou com resenha de livros por aqui! Ontem (01/01) a minha adorável filha Bacon, sorteou do potinho de resenhas da mamis o primeiro livro do ano para ganhar post aqui no blog e o escolhido foi Cidade dos Ossos da Cassandra Clare.

O livro conta a história de uma moça chamada Clary, ao completar 16 anos ela acaba tendo sua vida revirada por coisas que ela sequer sabia que existiam e por um segredo que foi guardado por toda a sua vida, que traz um mundo desconhecido a tona cheio de aventuras, perigos e mistérios.

Eu sei... parece um filme da sessão da tarde, mas o que importa é que a Clary vai descobrir muitas coisas sobre si mesma, sua família e seu legado ao longo deste livro de estréia do universo dos Caçadores de Sombras.

Cidade dos Ossos - Cassandra Clare - Os Instrumentos Mortais #1Cidade dos Ossos - Cassandra Clare - Os Instrumentos Mortais #1


O livro tem uma narrativa bastante contagiante, você lê sem sentir e quer descobrir tudinho de uma vez. Acredito que isso torna a série tão popular, a narrativa fluida cheia de ação e cenas muito interessantes, daquelas que você fica "naquela parte que fulano faz tal coisa, nossa dei um berro!" porque é assim que a história acontece, ela envolve o leitor, o coloca naquele universo e faz a gente torcer e se empolgar com tudo que está acontecendo ali.

Não preciso nem falar que essa imersão, se deve a um trabalho bem feito da autora que consegue te fazer sonhar em ser um caçador de sombras, conhecer o instituto e querer ser amiga do povo porque eles são muito talentosos, cada um a seu modo. Palmas pra tia Cassie que sabe como escrever uma boa história e criar um mundo interessante, mesmo com tantos outros por aí, ela consegue criar algo que foge do clichê, mesmo sem fugir (isso não faz sentido, mas vai ler pra ver se você não vai entender o que eu digo u.u).

O roteiro é simples, não é grandioso, nem totalmente imprevisível, mas é bem executado. Acho que é mil vezes melhor, um roteiro simples e bem feito do que um super pretensioso que morre na praia.

A jornada da Clary é interessante, ela é uma personagem com vontade, coisa que tá em falta por aí, apesar de jovem e confusa com tudo ela quer chegar lá, é instintiva e segue o seu caminho, meio que aprendendo na prática o que é ser uma caçadora de sombras, mas ela faz a coisa fluir e não fica de mimimi como muitas protagonistas. 

O arco desse primeiro livro não é complicado, ele tem algumas partes chaves que vão determinar o restante da série, é um livro introdutório, é feito para chamar leitores para o universo, ele tem uma trama mais expositiva, nesse livro você vai encontrar muito do submundo, das diferentes raças dos submundanos, as rixas, os relacionamentos e toda a hierarquia presente.

É um livro de entrada e tem a dosagem certa para que você entenda se quer seguir em frente com a série ou não. Nesse ponto Cassandra tem o meu respeito, ela sabe o que está fazendo e é bom ver autores assim.

Os personagens são frutos dessa trama, não são profundos, não são multifacetados e tem pouco de sua história revelada aqui. O objetivo desse livro é mostrar a Clary e suas descobertas, os demais são pano de fundo e isso pode desagradar um pouco nesse livro, mas pode ficar tranquilo que essa questão vai se desenvolvendo ao longo dos demais livros.

Acho já deu para ter uma noção de como é o livro, certo? Ótimo! Então agora vou mencionar a minha experiência como leitora.

Eu comecei a ler esse livro na hype elevada nível master, e... rolou uma decepção bem razoável, porque como eu disse, esse é um livro de entrada, mas como eu já tinha muuuuuita informação sobre o universo eu achei ele previsível e em algumas partes, com certas decisões dos personagens, um tanto duvidosas. Os personagens não me conquistaram, como nesse livro eles são mais superficiais, eu fechei o livro sem ter o famoso "personagem preferido", gostei do pessoal, mas não amei ninguém entende?

No entanto, depois de refletir muito eu posso dizer com certeza que esse resultado se deve a mim apenas. Eu estou acostumada a ler de tudo, meu gênero favorito é fantasia, então eu já li muita coisa e é difícil me surpreender, o que eu realmente gostei foi do universo, esse sim foi um ponto positivo, que me deu impulso pra seguir o resto da série e eu posso dizer que foi muito melhor, porque eu já tinha uma visão mais clara do todo e não fui tão afobada. 

Acho que vale muito a pena ser lido, vale cada página e posso prometer que a história vai se desenvolvendo e se tornando mais complexa depois, recomendo viu? #FicaDica

Espero que tenham gostado da resenha, deixe aqui nos comentários se você conhece a série ou se ficou a  fim de ler, quero muito saber sua opinião!

Bom, minha gente, é isso! Até a próxima.


Crianças Más da ficção


Oi gente! 

Como sabemos o Papai Noel avalia o comportamento das crianças, se forem boazinhas recebem  que pediram em sua cartinha, se forem malvadinhas não ganham presente como castigo pelo mau comportamento.

Pensando nisso surgiu esse post com os personagens "malvadinhos" da ficção, aqueles que não vão ganhar presente do Papai Noel nesse natal, porque tiveram mau comportamento.

Para a lista eu fiz um top 5 de personagens malvados que, se eu fosse o Papai Noel, não daria presente.


Crianças Más da ficção

Começando a lista temos o Rei do Inferno, esse menino que quando jovem sentiu tanta rejeição de sua mamãe que uma vez até tentou tocar ele por 3 porcos, quando na verdade ele valia pelo menos 5! Crowley cresceu amargurado e se tornou um menino muito mau e depois de tantas coisas realmente desprezíveis vai ficar sem presente (de novo).

Crianças Más da ficção

Em segundo lugar temos um Hobbbit! Smeagol, se corrompeu por causa do anel e desde então foi um menino muito malvado enquanto tentava proteger seu precioso. Ele fez muita coisa ruim, como matar seu melhor amigo, e tentar dar o Frodo e o Sam de comida para aquela prima da Aragogue. Pois bem, por seus atos nada bondosos Smeagol ganhou segundo lugar no meu top 5.

Crianças Más da ficção

É com pesar no meu coração (porque eu o amo muito) que coloco o Lestat nesse ranking, mas convenhamos ele é um vampiro malvado e totalmente desprovido de caráter. Lestat faz o que quer, é um espírito livre, mas... ele faz muitas coisas ruins não é mesmo? Só criar a Cláudia já deu passe livre pra estar na lista dos malvadinhos pela eternidade.

Crianças Más da ficção

Cersei Lannister está na lista negra do Papai Noel porque já fez muita coisa condenável como mandar uma galera do elenco pelos ares naquela cena épica do fogo vivo, ela é mais que má, é um gênio do crime, então lógico que ela deveria estar por aqui!

Crianças Más da Ficção

Esse é um menino mesmo e não é bem um menino mau, mas ele fez umas cacas bem lindas não é? Edmundo é aquele cara que a gente deveria pegar e dar uma surra pra aprender a deixar de ser babaca! Eu tenho uma bronca extrema dele, apesar de ter se redimido depois ele ainda merece estar na lista sim porque o que ele fez não tem perdão!

Bônus!

Crianças Más da Ficção

Sim!!!!! Eu coloquei um personagem bônus! E ele é o meu anti-herói preferido, é engraçado sarcástico, mas merece ir pra lista dos malvadinhos gente. Deadpool é mega violento, fala palavão pra caramba, tem um humor negro que a cada frase o coloca cada vez mais na lista Vip do Crowley. Então como bônus ele está aqui também.

Bom gente é isso, espero que tenham gostado da lista de malvadinhos, lógico que existem vários outros personagens que mereciam estar aqui, mas eu quis fazer um top 5 para não ficar tão cansativo.

É isso aí gente! Deixem nos comentários quem são os personagens que deveriam estar na  sua lista dos malvadinhos!
A armadilha de Rogdarin



Reza uma lenda antiga, que diz que os espíritos retornam ao mundo dos vivos na madrugada de todos os santos, neste dia as almas andam livres do véu que separa o natural do etéreo. Naquele ano Louise havia se preparado, ela conhecia as lendas e esperava ansiosa ver o levante dos mortos, o que ela não sabia era de Rogdarin, um espírito mau que viveu há séculos e vinha ao mundo naquela noite em busca de crentes para levar almas dos vivos ao mundo etéreo. 

Rogdarin em vida foi um poderoso bruxo, suas magias eram evocações malignas cheias de dor e sofrimento, quando enfim foi morto por clérigos da santa igreja, jurou voltar sempre na madrugada dos mortos e levar sempre um tributo.

Aquele ano foi o mais memorável, Louise andava pelas ruas com seu vestido negro em busca de almas verdadeiras imersas no mar de rostos vivos, encontrou inúmeros, mas nenhum aparentemente era real até se deparar com o homem loiro de olhos azuis encostado displicentemente em um muro. Algo nele lhe chamou a atenção, ele possuía um enigma no olhar e o meio sorriso era como um convite. Quando a viu ele se desencostou do muro, era alto e bonito, por algum motivo escuso, Louise se lembrou de Dorian Gray, do livro de Oscar Wilde lido na adolescência, ele cheirava pecado, mas sua beleza era tão tentadora que não conseguia se conter, sorriu para ele e ele lhe sorriu em resposta.

- Perdida senhorita? - disse com o timbre de voz mais belo que Louise já ouvira.

- Não, apenas passeando. - respondeu.

Ele lhe estendeu um braço e ela de bom grado aceitou, saíram juntos pela noite praticamente em silêncio, ela estava enfeitiçada, como se houvesse algo naquele homem do qual não pudesse fugir, sentia-se como se toda a sua vida tivesse esperado por ele, como se ele por vezes tivesse lhe chamado e agora ela podia vê-lo próximo e apreciar sua companhia, como se um sonho pudesse ser real, caminharam longamente pela noite, trocaram poucas palavras, mas era como se se conhecessem há muito.

Enfim a noite estava chegando ao fim, as primeiras nuances no céu começavam a propor que o sol se movia para enfim chegar. Ele a olhou longamente e ela sorriu, ele tocou seus cabelos e ela fechou os olhos para sentir melhor o toque.

- Cara, gostaria de vir comigo? - Ele perguntou, naquele timbre avassalador.

- Claro... -  Ela disse sem ao menos se dar conta.

- Então venha. - ele segurou sua mão e ala se deixou conduzir ainda de olhos fechados. 

Quando os abriu o lugar onde estavam já não mais existia, mas uma terra árida e cinzenta, o céu nada mais era que uma mancha escura como fumaça indissipável, Louise ficou horrorizada, o homem a sua frente nada mudara, ainda era lindo e charmoso, mas seu sorriso agora adquirira um tom cruel.

- Eu não entendo. - conseguiu balbuciar.

- Meu nome cara, é Rogdarin, em vida fui um dos maiores bruxos que já existiu e cada ano nesta mesma noite eu vou ao mundo dos vivos arrecadar um tributo, séculos se passaram e já possuo muitos, mas ainda muitos faltam, no dia em que completar minha coleção, poderia irromper deste lugar miserável e finalmente me reerguer, tentar contra a descendência daqueles que me puniram e infringir na terra o domínio do meu senhor. Sinta-se honrada cara, pois você nada mais foi, que uma de minhas aquisições.

Louise chorou e gritou, mas os outros ali aprisionados há muito já haviam desisto da dor, eram como seres vazios andando a esmo em um lugar desolado. A tristeza se abateu, jamais veria sua família de novo, iam se preocupar sem saber o que havia ocorrido, a tristeza e a desolação tomou conta dela. De tudo tentou para sair, mas nada deu certo e lá permaneceu com sua dor.

Naquela manhã uma grande aglomeração estava presente em frente a um muro uma jovem fora encontrada morta em um vestido negro, com a chegada dos pais finalmente puderam identificá-la seu nome era Louise Charmelier e havia morrido de causas completamente desconhecidas. Nunca se soube o que houve e Louise nunca mais pôde rever os vivos, nem mesmo na noite em que o véu se desfaz pois a magia de Rogdarin não assim lhes permitia.


Esta é a continuação do conto Som de Violino publicado anteriormente, recomendo a leitura para melhor ambientação.


Eles estavam sentados no sofá da sala, ela não conseguia largar a foto, não conseguia parar de olhar, como era possível?

- Amor, preciso que confie em mim e me permita dizer tudo antes de fazer qualquer pergunta, tudo bem? - disse Charlie e ela concordou com a cabeça. - Esse casal na foto somos nós, quer dizer, sou eu, ela é que não é você. - Ela o olhou espantada, com a interrogação estampada no expressão. - O nome dela era Helena, e a menininha era nossa filha Julie, tinha 5 anos. - ele fez uma pausa.

- Helena... - disse ela, o nome lhe pareceu estranho, como se há muito não ouvisse ele. Fechou os olhos e uma cena inteira se formou, como um trecho de um filme antigo. 

Ela estava de pé na porta de casa, Julie estava sentada no gramado embaixo de um salgueiro, ela tinha uma boneca de pano loira e sorridente, a criança olhou para a mãe, acenou e sorriu. Ela era linda com os cabelos ondulados de um castanho claro brilhante, olhos castanhos como os do pai, doce e educada, uma criança maravilhosa, a mãe acenou em resposta e, por alguns segundos, sentiu um aperto no peito, como se algo de muito ruim estivesse vagando no ar.

A cena durou poucos segundos, mas foi o suficiente para fazer seus olhos se encherem de lágrimas.

- O que está acontecendo comigo? - disse enquanto as lágrimas desciam quentes pelo rosto.

- Você está se lembrando. - respondeu ele.

- De quê? - ela parecia irritada e confusa.

- De sua vida. - ele a olhou de forma grave. - Deixe-me contar a história. - ela concordou.

- Eu nasci no século XVIII meu nome é Charlie Grogan. Quando eu tinha 25 anos eu conheci uma moça, ela era a mulher mais linda que eu já vi, seu nome era Helena Folks, ela tinha 21 anos, foi amor a primeira vista. Comecei a cortejá-la no verão, firmamos compromisso, no outono daquele ano eu pedi sua mão e marcamos a data para a primavera. Tudo era perfeito, eramos felizes, tínhamos nossa casa próxima a floresta, da nossa janela conseguíamos ver as montanhas e lá no alto o castelo do duque, um homem estranho e recluso. Após um ano de casados tivemos nossa pequena Julie. Helena era costureira e eu era balconista em um mercado da vila, tudo ia bem, mas quando Julie estava com 5 anos as vendas caíram e fui demitido, uma praga se apossou da cidade, não surgiam mais pedidos e Helena também não tinha mais trabalho, resolvi então subir as montanhas e conversar com o duque. Ele me ofereceu um emprego, mas disse que eu precisaria passar um tempo com ele no castelo. Tive que deixar minhas mulheres sozinhas. Lá aconteceram coisas terríveis, ele me usou para as mais estranhas experiências, usou de métodos obscuros, foram cirurgias e rituais das mais diversas culturas, por fim eu estava morto, mas não estava, um dia eu fugi, desci as montanhas e bati na porta de minha casa, Helena me atendeu, conversamos muito, ela me fez várias perguntas e eu respondi todas elas, eu parecia bem, mas eu sabia que não estava. Ela me disse que estava grávida, que havia descoberto assim que eu fui embora, isso já tinha 3 meses, ficamos muito felizes, em comemoração toquei violino para ela naquela noite, dormimos abraçados. O som da porta batendo ao vento nos despertou, percebemos que algo estava errado.  Helena verificou o quarto de Julie e ela havia sumido, saímos para a noite a procura dela, o lugar parecia um deserto, as casas estavam vazias, nos separamos para procurar nossa filha, então eu ouvi os gritos de Helena, estava caída no chão curvada sobre o ventre e tinha sangue manchando o vestido. Tudo que ouvi foi o rosnado dele, enquanto ela morria em meus braços, implorei que me ajudasse e ele me disse que não ajudaria um traidor. Quando ela morreu eu gritei e chorei enquanto ele ria compulsivamente, encontrei minha filha naquela noite, degolada e jogada na floresta de forma displicente, naquela noite prometi que o mataria, viajei pelo mundo e estudei para entender o que ele me tinha feito, descobri que ele usava além de ciência e anatomia, artes das trevas para me manter vivo, eu era um tipo grotesco de zumbi, um morto vivo. Nada pode me matar, talvez possa, mas como sou um emaranhado de partes e rituais, não há como saber o que sou. Vaguei por anos, sozinho, até encontrar você... - ele a olhou com ternura. - Você é igual a ela, sempre pensei se não teria alguma ligação e agora sei que você tem o espírito dela, que de alguma forma a minha amada Helena voltou pra mim. - fez uma pausa para verificar a expressão incrédula dela. - Eu te amo Olivia.

Ela o olhava incrédula, era uma história absurda, em pleno século XXI! Ele era um homem normal, perfeito, carinhoso, educado, como poderia ser assim tão velho?

- Amor, por favor, diga alguma coisa. - ele parecia péssimo.

- O que eu poderia dizer? Eu não consigo digerir isso! Que coisa absurda, você é um, seja lá o que for, se é que isso é verdade, se é que não está alucinando e precisa de um psiquiatra. Eu... não sei o que pensar! - Ela estava gritando, viu a expressão de tormento no rosto dele e parou de falar.

As emoções estavam misturadas, era uma história insana, mas ela viu o lugar, sentiu a dor, provavelmente o aborto do bebê que estava esperando, viu a filha e o duque rindo, como um rosnado, como se ele magicamente a houvesse matado, tudo que ele contou, parecia real, mas não podia ser. Ela escondeu o rosto com as mãos e chorou copiosamente, sentiu ele se aproximar e afagar seus cabelos, era isso que amava nele, seu carinho, a maneira de sempre conseguir ampará-la.

Nos braços dele adormeceu. 

Acordou em um lugar estranho, um quarto pequeno, sem janelas, as paredes acolchoadas uma porta grossa, chamou por socorro e um homem a espiou pela grade na pequena janela que havia na porta, não lhe disse nada, apenas saiu, minutos depois voltou com um homem, ele usava jaleco e falava suavemente.

- Venha comigo, por favor. - disse e ela o seguiu confusa.

O corredor por onde passava tinha várias portas e dentro pessoas com comportamentos estranhos. Eles viraram a esquerda no fim do corredor até chegarem a uma porta larga, parecia um consultório e ficou se perguntando se estava em um hospital.

- Sente-se por gentileza. - disse o homem de jaleco e ela obedeceu. - Eu sou o doutor Reed, sabe por que está aqui? - perguntou ele a observando atentamente.

- Não sei nem onde estou... - respondeu confusa.

- Entendo. - disse ele. - Deixe-me contar a você então. - ele se ajeitou na cadeira e entrelaçou os dedos como se fosse rezar, ela reparou nesse gesto, como se fosse muito familiar, mas não conseguia recordar o motivo.

- Olívia, você está aqui porque está tendo um transtorno dissociativo de identidade. - ele fez uma pausa para avaliar a expressão dela. - Lembra-se do que houve? - perguntou.

- Claro que sim, lembro que estava em casa com meu marido, Charlie, ele... ele... estava me contando uma coisa importante. - ela tentava se lembrar dos detalhes, mas eles pareciam estar se apagando rápido como em um sonho.

- Olívia, você veio para cá porque pensa ser outra pessoa, teve um lapso sério e feriu pessoas importantes, por isso veio para cá. - disse o Dr. Reed.

- Feri? Está louco? Eu... Eu estava em casa com meu marido, ele me contou uma história antiga e eu adormeci e acordei aqui! Que lugar é este? - sua voz soava esganiçada pelo desespero.

- Olívia, preste atenção, este lugar é um hospital psiquiátrico, você está aqui há 18 meses, você tem repetidas alucinações, imagina ser a reencarnação de uma mulher chamada Helena, que viveu no século XVIII, que seu marido sofreu modificações e é um ser estranho, que sua filha de 5 anos Julie foi morta por um duque e que teve um aborto espontâneo e morreu, você acredita que seu marido é um homem de mais de três séculos e que ele lhe contou esta história. Você conta essa história repetidas vezes, desde que chegou aqui, em geral vive essas lembranças em sua cabeça, mas nada disso é real, é apenas um transtorno dissociativo de personalidade, você alucina uma história, mas há poucos momentos de lucidez em que se lembra, daqui, de quem é... - ele parou observando o rosto dela, branco como cera, com a boca entreaberta. - tem dias em que se lembra do que fez.

- O que eu fiz? - perguntou num fio de voz, mas não ouviu a resposta.

Ela estava de pé na porta de casa, Julie estava sentada no gramado embaixo de um salgueiro, ela tinha uma boneca de pano loira e sorridente, a criança olhou para a mãe, acenou e sorriu. Ela era linda com os cabelos ondulados de um castanho claro brilhante, olhos castanhos como os do pai, doce e educada, uma criança maravilhosa, a mãe acenou em resposta e, por alguns segundos, sentiu um aperto no peito, como se algo de muito ruim estivesse vagando no ar. 

A cena mudou, chovia e o salgueiro estava com manchas de sangue, a boneca de pano jazia jogada como um trapo, sujo de lama e sangue, o vestido de Olívia estava manchado de sangue também.

- Olívia? O que... - a frase ficou presa na gargante dele ao ver a cena bizarra, a filha estava jogada no chão, degolada, nas mãos de Olívia estava a faca com a qual a matou, o sangue estava espalhado por todo lado enquanto ele ouvia a a risada rosnada da esposa.

- Toque Charlie, quero ouvir o som do violino, toque pra mim. - disse Olívia entre as risadas enquanto ele chorava.



A respiração ofegante devido a corrida permeava seus ouvidos. Estava em um lugar escuro, parecia afastado, via casas, mas elas pareciam todas abandonadas, havia uma montanha que se destacava majestosamente na paisagem e em seu topo havia um castelo feito de pedra, era noite fechada, não havia nenhuma fonte de luz, de repente, avistou uma luz acesa no castelo, bem no alto da montanha, foi de relance, logo se apagou, foi tão rápido que ela achou que poderia ser apenas uma ilusão de sua visão turvada pela noite.O som, era suave e melodioso, uma música leve e compassada, ela ouvia os acordes de um violino ao longe, a música a acalmou, por alguns instantes pensou que não deveria temer nada, a música foi se tornando mais alta como se o violinista estivesse se aproximando, ouviu som de folhas sendo pisoteadas atras de si enquanto o som da música se aproximava junto com ele.

O vento começou a soprar forte, Olivia o vento disse seu nome e seu corpo inteiro se arrepiou, o som do violino estava chegando, ela se virou e viu a silhueta do violinista, era um homem alto, parou de tocar e ficou imóvel na escuridão, não podia ver o rosto dele, de alguma forma ele parecia familiar, mas não se lembrava de onde o conhecia.

De repente as perguntas começaram a se formar em sua cabeça, como tinha chegado ali, que lugar era aquele, deu um passo na direção do homem, ele então se virou e saiu a passos largos, ela correu para alcançá-lo, mas ele havia sumido, ficou perdida na noite sozinha, tentou gritar, mas ninguém a ouviu, estava em um deserto, não sabia que direção seguir, ouviu um som suave de passos se aproximando, olhou na direção do som e viu uma criança, parecia uma menininha, com os cabelos esvoaçando a brisa, Olivia o vento chamou seu nome novamente, parecia uma voz agourenta, mais uma vez se arrepiou, estendeu a mão na direção da menina e ela deu um passo atras, o que estava acontecendo? A criança sumiu. 

Repentinamente uma dor horrível surgiu em seu ventre, ela curvou-se de dor e gritou por socorro, a voz saiu trêmula de medo e dor, mas ninguém apareceu, gritou novamente, a dor era como se a estivesses esfaqueando sua barriga repetidas vezes, a dor era quase insuportável, começou a sentir-se fraca, percebeu que ia desmaiar, mas uma nova figura negra havia surgido, era outro homem, um homem mais gordo, um pouco mais baixo, emitia um som que parecia um rosnado, então percebeu que era a risada dele, estava rindo dela, da dor que estava sentindo. 

Ela começou a chorar, enquanto a dor se tornava cada vez mais intensa e aos poucos ia enfraquecendo, quando seus joelhos tocaram o chão, de alguma forma sabia que ia morrer, a consciência começou a abandoá-la aos poucos e quando caiu para a frente com a última estocada de dor...

- Não! Nãooooo! Não!!!! - ela acordou gritando debilmente, rouca e desesperada, sabia que estava chorando, parecia completamente histérica, se debatia na cama chorando e gritando. 

Seus pulsos foram segurados firmemente.

- Olivia, acalme-se! Ei, calma. - a voz dele a trouxe volta ao quarto e ela parou de se debater e gritar. - Isso mesmo, shiiii, está tudo bem. - ele a abraçou, ela encostou o rosto em seu ombro largo e chorou, ele afagava seus cabelos e a balançava como uma criança enquanto ela soluçava, aos poucos foi se acalmando mais, o choro se tornou menos intenso, então se desvencilhou do abraço.

- Preciso de água. - disse ela baixinho.

- Busco para você. - ele respondeu.

- Não! - disse alarmada. - Eu vou com você até a cozinha, não quero ficar sozinha. - disse soando menos desesperada, então saíram os dois do quarto, rumo a cozinha. Ele pegou um copo de água e entregou a ela, que estava sentada na mesa da cozinha.

- Teve um pesadelo? - perguntou ele.

- Sim, um muito estranho. - respondeu.

- Quer me contar?

Ela contou a ele, achou que ele pareceria incrédulo ou surpreso, mas a expressão dele não mudou, ela terminou sua água, eles foram para a cama se deitaram abraçados e ela adormeceu e não teve mais nenhum sonho ruim naquela noite.

Quando acordou, ele não estava na cama, se levantou e saiu do quarto, sentiu o cheiro gostoso de café fresco e de pão torrado, foi até a cozinha e encontrou ele preparando a mesa para ambos.

- Bom dia. - Disse ele beijando-a 

- Bom dia - respondeu ela.

- Já ia acordar você para o café.

Ela sorriu, parecia gostoso.

Eles tomaram café tranquilamente, conversando como todas as manhãs, mas algo parecia diferente.

- Olivia, como se sente? Teve um pesadelo esta noite, conseguiu dormir melhor depois?

- Consegui sim.

Ele parecia preocupado com algo.

- O que foi Charlie? 

- Não é nada amor. - disse ele.

- Parece incomodado com alguma coisa, me conte o que é.

- Já disse que não é nada.

- Não parece ser nada Charlie. - disse um pouco zangada.

- Não se preocupe, está tudo bem.

Ela decidiu parar de perguntar, se fosse importante ele falaria. O dia passou tranquilamente, era um sábado ensolarado, ela aproveitou para dar atenção a alguns afazeres domésticos. De repente pensou em ir dar uma organizada no sótão, havia muito tempo que não ia até lá. Pensou em se livrar de algumas coisas, haviam tantas delas que jamais voltariam a usar. Começou a abrir as caixas, e verificar os conteúdos, fotos antigas, quadros, objetos de decoração, coisas há muito tempo quebradas, passou horas nisso. Então viu uma caixa em um canto, sabia que era de Charlie, abriu e começou a examinar o conteúdo, haviam alguns documentos antigos, pensou de deveriam ser registros da família dele, depois perguntaria o que era e porque ele guardava aqueles documentos. Continuou olhando, até que uma coisa lhe chamou a atenção, uma foto antiga, amarelada e descascada nas bordas, ela examinou a foto, parecia um lugar familiar, quando a compreensão chegou até ela o pavor foi instantâneo, um grito saiu de sua garganta sem que pudesse conter, em segundos Charlie entrava no sótão correndo. Quando a viu ajoelhada no chão com a foto nas mãos, foi como se tivesse sido golpeado fortemente. A expressão dela era de medo e incredulidade, a imagem mostrava um casal e uma criança, uma menina, mas as coisas mais assustadoras na foto eram o casal e a montanha que aparecia atras deles, a montanha era a mesma de seu sonho, com o castelo no topo e a mesma luz que ela viu acesa na janela, o casal era uma versão antiga e desbotada dela e de Charlie.

- Ok Olivia, precisamos conversar. - disse ele.