Nem todos que vagam estão perdidos

Essa frase é tão profunda, tão imensa em seu significado...

Já parou para pensar que estar andando em círculos não necessariamente te faz uma pessoa perdida? Quantas vezes você sabia exatamente aonde queria ir, mas não sabia o caminho que poderia seguir para chegar até lá?

Essa verdade nos abrange em todos os sentidos. Está na pessoa que ama o outro, mas não sabe vivenciar isso. Está no empreendedor que começa o sonho do próprio negócio, mas não sabe como administrá-lo. Está no sonho de trabalhar em uma determinada área, mas nunca se arriscar porque acha que não vai dar certo. Está no casamento que deu errado porque um dos dois (ou os dois) não se comprometeram totalmente e deixaram o amor morrer. Está em tudo, em todos os nossos momentos, em todos os fracassos, em todas as derrotas, em todas as vezes que você quis muito alguma coisa, mas não soube lidar com o que isso iria requerer de você.

Não é o destino que te assusta, é o caminho, como quando você quer viajar para o outro lado do mundo, mas morre de medo de andar de avião.

E antes que isso te desanime, deixe que eu tire esse fardo das suas costas, estar vagando é normal, todos nós vagamos as vezes, o importante é sempre ter a sua bússola em mãos para encontrar o seu norte, para voltar para a estrada e seguir em direção ao objetivo.

Talvez você se perca no caminho, talvez resolva mudar de direção do nada e isso não diz respeito aos outros, diz respeito a você, onde quer chegar, o que quer vivenciar, se quiser ir pelo caminho mais longo ou se quiser sentar na beira da estrada e olhar as estrelas, isso tem a ver com a sua jornada e a sua felicidade e você não deve se desculpar ou se sentir mal ou incorreto por fazer essas escolhas.

Ande para o onde o sol te levar e seja feliz no percurso, guarde suas recordações e saiba que as melhores jornadas são trilhadas por pessoas que mudaram de ideia diversas vezes, conheceram várias estradas e podem dizer com certeza o que desejam porque já vagaram e não estão mais perdidos.

Não queira saber onde quer ir muito cedo, pois quem muito cedo sai de casa, muito cedo chega e muito cedo se acomoda e a comodidade não mais te permitirá vaguear e explorar.

Então seja autor dos seus caminhos e saiba que...




SER MODELO

Olá, quero contar a minha história, a história de como eu me tornei uma modelo, top internacional. Tentarei ser breve, mas já peço desculpas se por acaso acabar me alongando demais.

Eu me chamo Amanda, hoje estou com 25 anos. Nasci em uma cidade pequena, aquelas cidades de interior, em que todos tem sotaque caipira e todo mundo conhece todo mundo.

Estudei em escola pública sempre e, um belo dia, já no ensino médio apareceu um agente. Ele trabalhava em uma agência de modelos e estava divulgando uma seleção, que seria no fim de semana seguinte. Na época eu tinha 15 anos, mas era uma moça bonita, cabelo  e olhos castanhos e era a mais alta dentre as minhas colegas de classe. 

Seria bobagem dizer que não me empolguei, minhas amigas ficaram eufóricas e decidimos ir todas juntas na seleção. 

Meus pais eram muito conservadores e não queriam me deixar ir, mas consegui convencer eles a deixarem.

No dia da seleção, fomos eu e mais 4 amigas para o local do evento, lá preenchemos um formulário e fomos encaminhadas para um lugar onde tinham várias araras de roupas, sapatos e acessórios. Escolheram roupas para nós, nos maquiaram e arrumaram nossos cabelos, fotografamos em um estúdio e tivemos uma breve aula de como desfilar, foi divertido, estávamos muito empolgadas. 

Passaram-se alguns dias e meu telefone tocou, era o tal agente, me dizendo que tinham gostado das minhas fotos e que queriam conversar comigo e com minha família, meus pais concordaram e assim foi dado o start da minha carreira.

Ele me ofereceu um contrato de experiência, eu ganharia apenas pelos trabalhos que fizesse e parte do lucro ficaria para a agência, meus pais acharam razoável e concordamos em assinar. 

Cerca de um mês depois surgiu o primeiro trabalho, era para fotografar uma linha de roupas para uma loja, mas o que eu não esperava era a exigência que veio junto, eu teria que perder peso, na época com meus 1,75 de altura eu pesava 64 quilos, mas eu teria que baixar meu peso para no máximo 58, mas o pior é que eu teria apenas três semanas para cumprir a exigência, aceitei mesmo assim e comecei uma dieta que vi na internet. 

No prazo estipulado estava pesando 57,5 quilos e fui aceita para fotografar, rendeu pouco, porque a parte da agência não cobria gastos como viagem e alimentação, logo, como eu era menor de idade e tive que levar minha mãe junto gastamos passagens de ônibus, uma noite em um hotel e a alimentação durante a estadia.

Com o tempo surgiram mais trabalhos, alguns pediam para que eu estivesse bronzeada, outros para que eu tingisse o cabelo ou usasse peruca, comecei a gastar com tratamentos para o cabelo e pele, além de muita maquiagem, tive de desembolsar um bom valor fazendo meu book de modelo e aos poucos fui sendo engolida pelo trabalho.

Aos 17 anos eu já pesava 54 quilos, ia mal na escola porque viajava muito, as vezes desmaiava de fome por causa das dietas, comecei a ter enxaqueca e deficiência de vitaminas. Minha médica me encaminhou para uma nutricionista que me deu a dieta mais absurda do mundo, que consistia em fazer eu aumentar meu peso, para no mínimo 58 quilos, mas meus trabalhos pediam cada vez menos peso, comecei a comer para saciar e vomitar no banheiro antes de digerir, assim eu adquiri bulimia e como consequência entrei em processo de anorexia, mas a carreira ia bem obrigada.

Consegui manter meus 54/55 quilos até meus 19 anos, então passei por uma seleção para uma agência maior e fui morar em Milão com outras modelos na república da agência. Lá as coisas começaram a ficar sérias porque minha mãe não estava ao meu lado para me controlar.

Comecei a comer cada vez menos, mesmo assim as empresas escolhiam muitas vezes outras modelos por eu não estar no “padrão” e assim me afundei de vez. 

Aos 20 anos eu entrei no estágio mais grave da anorexia e passei meu aniversário de 21 anos internada em um hospital, estava começando a ter sérios problemas de saúde, muitas deficiências de vitaminas e tudo que eu conseguia pensar era que eles iriam me entupir de comida e que eu ia regredir meses no meu processo de emagrecimento, eu estava irritada demais, teria que voltar com as dietas assim que saísse do hospital.

Lembro que nessa época minha mãe chorava muito e se arrependia de ter me dado força para começar essa carreira, mas eu me chateava com ela, dizendo que eu estava feliz, que eu morava em Milão, com as despesas pagas pela agência e que era isso que eu queria. Então, ela chorava ainda mais e dizia que eu só podia estar cega.

O baque veio quando eu recebi a visita de uma psicóloga. Ela sentou na cadeira que ficava ao lado da minha cama e fez a seguinte pergunta:

- Você tem o sonho de morrer? – ela tinha uma expressão serena e me olhou bem nos olhos para que eu respondesse.

Fiquei chocada com a pergunta, realmente abalada e respondi.

- Quem sonha em morrer? Eu quero viver muito e ser ainda muito feliz! 

Então ela olhou para mim por alguns instantes com olhar pesaroso e pegou alguns papéis que estavam em suas mãos.

- Estes são os seus exames Amanda. Você tem deficiência de vitaminas, minerais, baixa porcentagem de gordura, hipoglicemia severa, baixo teor de sódio, cálcio, zinco e ferro. Isso se deve a sua excessiva perda peso, isso se deve a sua bulimia e anorexia, se deve as dietas restritivas que você faz. Falei com sua mãe antes de vir aqui conversar com você e ela me disse que você está feliz por estar vivendo o seu sonho de ser modelo. Então Amanda, vou te falar a verdade dura e cruel que eu acho que você ainda não compreendeu. O seu sonho de ser modelo vai ser responsável pela sua morte precoce. Eu já tratei inúmeras moças como você, meninas lindas com um sonho de serem modelos, de viajar o mundo desfilar e ganhar dinheiro, mas que acabaram exatamente onde você está agora, em uma cama de hospital, muitas delas em coma, porque a deficiência de todos os nutrientes do organismo era tão severa que elas nem conseguiam mais se manter conscientes. Eu vim hoje aqui para te dizer isso e quero que você faça uma escolha, viver ou ser modelo? Porque com as medidas que você tem hoje pode ser que você consiga bons trabalhos, mas eu garanto a você que não adiantará nada ter bons trabalhos se você não puder sequer caminhar sozinha devido a fraqueza do seu organismo.

Ela me olhou, com aquela mesma expressão pesarosa. Confesso que a primeira reação que eu tive foi a de que ela estava louca, que ela estava sendo muito dramática e que não era isso tudo, mas parece que ela leu meus pensamentos, pois me entregou meus exames e me mostrou ao lado de cada contagem as anotações dela, as diferenças entre o valor mínimo exigido para uma pessoa adulta saudável e as minhas eram absurdas, diferenças realmente exorbitantes e meu queixo caiu.

Em pouco tempo comecei a chorar, ela me consolou, disse que eu poderia melhorar que eu poderia trabalhar ainda, que meus padrões aceitáveis para ter uma boa saúde ainda me renderiam um corpo bonito, que eu ainda poderia ter alguns contratos assim.

Foi ali que começou a mudança, foi mais do que um processo de reeducação alimentar, foi mais do que apenas engordar um pouco e sair da zona crítica, foi uma mudança drástica no meu modo de pensar e ver o mundo, foi uma transformação total de vida como um todo.

Hoje eu estou bem, pratico exercícios, como de forma saudável e criei um modo de ajudar outras garotas como eu. Reuni algumas amigas que fizeram terapia comigo, que passaram pelo mesmo problema e juntas criamos nossa agência de modelos, nela nós temos uma equipe de preparação própria, fotógrafos e todo um convênio com médicos, nutricionistas e psicólogos para dar suporte. Na Natural Models o lema é saúde, já crescemos muito como agência, mas aos poucos estamos fechando contratos com marcas bacanas que tem a preocupação com a saúde, além de vários patrocínios, nossas modelos são todas muito lindas, com corpos reais, que conseguem bons trabalhos e que, cá entre nós, fotografam bem melhor que muita modelo esquelética por aí.

Eu acho que o mais importante dessa minha história é o conselho que eu sempre dou para as minhas modelos:

Nunca deixe que a sua saúde venha depois dos seus sonhos, é impossível usufruir dos nossos sonhos em um quarto de hospital, ou pior, em um cemitério. Sonho nenhum vale a sua vida. 

Portanto, viva e seja feliz, independente dos padrões impostos.




Oi pra você! Hoje vamos falar de Uma Noite de Crime (The Purge). Esse filme tem várias continuações e até uma série no amazon prime vídeo, mas hoje vou falar apenas do primeiro filme, então... Bora lá!
“Em 2022, as autoridades permitem que assassinatos e outros crimes sejam cometidos uma noite por ano. Nessa noite alguém bate a porta de James Sandin. (Netflix)”
Uma noite de Crime - (The Purge)


“Em 2022, os Estados Unidos vivenciam os menores índices de criminalidade e desemprego de sua história, tudo devido ao "Expurgo": um período anual de 12 horas no qual todo e qualquer crime é permitido, com pouquíssimas restrições, e os serviços emergenciais ficam suspensos. A premissa dos criadores da ideia é que isto é uma forma de os humanos liberarem seus instintos assassinos e transgressores, embora críticos afirmem que só os ricos conseguem ficar protegidos durante o período, enquanto que os pobres ficam entregues à própria sorte. (Wikipédia).”
Esse é o cenário do filme, os protagonistas são uma família comum de classe média alta, um vendedor de alarmes e sistemas de segurança James Sandin, sua esposa Mary, a filha adolescente Zoey e Charlie o filho caçula apaixonado por tecnologia. A família resolve trancar sua casa e aguardar até que a “noite de purificação” termine para que voltem a suas vidas, mas... Um homem aparece correndo e pedindo socorro e Charlie resolve abrir as portas de sua casa para acolhe-lo, o que ele não sabia era que o homem estava sendo perseguido por um grupo que leva a purificação a sério. O líder informa a família que caso não devolvam o homem para que possam matá-lo eles arrombarão a casa e matarão todos que estiverem lá como punição por sua interferência.
Então começa a noite da purificação, uma família apavorada, um grupo de pessoas sádicas e muitas cenas incríveis.

A palavra que define o filme é surreal, o enredo, as imagens, as caraterizações te remetem a um terror velado, você se vê roendo as unhas, levando sustos e se surpreendendo com algumas atitudes dos personagens, o filme segue um ritmo mais lento até passar um pouco da metade, mas a partir do momento que as primeiras cenas de ação começam o fim surge como um estalar de dedos. 

Com algumas reviravoltas realmente interessantes, você fica de boca aberta e quando pensa que as coisas estão se resolvendo, na verdade estão apenas tomando uma nova forma de medo e desespero.

O líder do grupo tem um grau de sadismo absurdo, ele enxerga matar como um ato de purificação, de expurgar os demônios dele e de quem ele mata, ele é incrível e muito bem construído, seus sorrisos afetados enquanto explica que irá arrombar a casa e matar a família, e seu jeito adorável de falar o tornam um prato cheio para quem gosta de assassinos mentalmente perturbados com perfil psicopata ou sociopata comum em muitos serial killers, mas ele não é o único perfil interessante, há alguns personagens com perfis assassinos mais passionais que também podem trazer boas experiências.

A família surpreende quando luta, eles tomam algumas atitudes que você enxerga muito perfeitamente o instinto de sobrevivência, lembra muito The Walking Dead, fazer aquilo que for preciso para sobreviver e salvar os seus.

O ritmo do roteiro é proporcional, começa com a passagem do tempo real e vai acelerando conforme desenvolve e no compasso vai te imergindo na história, tanto que você sente a adrenalina dos personagens. Tem efeitos interessantes em algumas cenas, como as pessoas passando pelos cômodos da casa com uma alegria desproporcional, o figurino fechou muito bem com a ideia, as mascaras com expressões grotescamente felizes e as roupas te remetem aos clássicos do terror te deixando tenso e desconfortável.

Notas:

Uma noite de Crime - (The Purge)

  • "Esse garoto tem que morrer!” é a frase que você repete quase o tempo todo, Charlie é um personagem que nós odiamos profundamente, o garoto tem um perfil completamente idiota sem medir absolutamente nada que faz, coloca todos em risco mais de uma vez e você se pega pensando “Matem ele por favor...”
  • A filha peca por causa dos hormônios, coloca a família em risco também por ser irresponsável, mas ela pelo menos faz alguma coisa útil e por isso decidimos perdoar ela (mas aquele garoto sem chance).
  • A família tem uma consciência muito pesada em tomar algumas decisões e isso te deixa meio “Se é loco mano, faz isso não”, pena que não adianta e você fica frustrado por isso.
  • Mary desenvolve bem, é uma mulher tranquila, mãe que não sabe nem segurar uma arma e isso te dá um ruim porque você não acredita que ela possa fazer algo interessante, mas ela consegue superar as expectativas e isso é muito bom. (Pena que o filho não puxou a ela no quesito superação)
  • Tem muitas cenas de mortes bem violentas, dá até desconforto de ver porque ficaram bem convincentes.


É isso gente, para ajudar os indecisos vale lembrar que é um filme particularmente violento, então passe longe se odeia ver sangue e mortes violentas, para ter um norte os personagens estão munidos de facões, machados e armas de fogo potentes, por exemplo.

Se você como eu gosta desse tipo de filme é uma ótima opção, basta sacar aquele cobertor confortável, uma pipoca caprichada e aproveitar!

Salto alto



Poc, poc, poc era o som dos meus sapatos no corredor do escritório logo cedo.

As pessoas me olhavam como se eu fosse uma daquelas mãos de ferro de coração gelado, a maioria morria de medo de mim, acho até que devia ter algum boato a boca pequena falando de coisas que achavam que eu tinha feito.

Na verdade não poderia culpá-los, há pouco mais de um ano demiti 12 funcionários em 3 meses e eu não demonstrei nenhum abalo em ser portadora das más notícias, acho que no fundo, pensavam que eu nem tinha um coração pulsando no peito.

Porém havia uma coisa que ninguém sabia de mim, eu tinha um coração e eu odiava salto alto!

Eu sonhei a vida inteira em ser artista plástica, usar tênis, viajar por lugares bonitos e pintar paisagens pitorescas, mas esse sonho foi tirado de mim aos 16  anos quando minha mãe me disse que isso era uma "idiotice" que deveria arrumar um emprego "de verdade" que pintar era profissão de vagabundo e eu lembro de ter chorado até dormir aquela noite com o coração partido por ter meus sonhos despedaçados.

Quando prestei vestibular fiz faculdade de economia e logo no primeiro ano consegui um estágio, me dediquei bastante e fui crescendo na empresa até ser a gerente da corretora que trabalhava, troquei aos poucos os sapatos confortáveis por esses saltos dolorosos, vesti uma máscara de expressão inabalável e me tornei a "dama coração gelado". 

Há um ano quando me deram a lista dos funcionários a serem demitidos meu coração parou, eram muitos e eu teria que chamar um a um e dizer que ficariam desempregados, em meio a crise que se desenvolvia. Alguns ficaram com raiva, explodiram em ofensas, outros ficaram calados, chocados demais para reagir e outros choraram e imploraram para que reconsiderasse tendo como resposta  meu rosto de desdém e um "Desculpe, mas isso não está mais em vias de ser discutido, por favor, pegue suas coisas e vá. Ligaremos quando precisar vir assinar os papéis." 

Se foi simples? Mas é claro que não, eu tenho um coração, mole demais eu diria, eu fiquei destruída de ter que dar aquela notícia a cada rosto que entrava na sala, eu chorei todas as noites durante aqueles meses de demissões, não apenas por ter demitido eles, mas porque eu odiava meu trabalho.

Era horrível acordar todas as manhãs, vestir aquelas roupas desconfortáveis, aqueles malditos sapatos e ser odiada por todos o tempo todo, não poder sorrir pra ninguém e o pior, não pitar mais, quanto mais eu me atolava no trabalho, menos eu pegava os meus pincéis, eu estava me perdendo e isso era desolador, eu nunca seria o que queria, e sempre seria odiada, era fria e profissional, como deveria ser e isso fazia de mim brilhante para os negócios e apagada para mim mesma.

A profissão me consumiu, eu sonhei tanta coisa e não realizei nada, minha carreira é digna de inveja, tenho uma gorda conta bancária, viajo para reuniões importantes em diversos lugares do mundo e me pagam por isso! Mas sou tão infeliz desse jeito...

Tudo que eu queria era pegar os meus pincéis e viajar o mundo, hoje viajo o mundo e não levo os pincéis, é deprimente.

Chego a minha mesa e o telefone toca, é uma amiga do colégio, nem sei ao certo como me encontrou, ela conta um pouco da sua vida e me faz a proposta mais inesperada do mundo. "Letícia, quer ser a artista de uma mostra na minha galeria? Lembro que você pintava muito bem e pensei, se não queria ceder alguns quadros seus para a exposição de novos talentos, que farei no próximo mês." Eu fiquei atônita, disse que há um tempo eu não pintava, só tinha alguns quadros guardados em meu escritório e ela disse que não havia problema, que eu deveria levar o que tivesse.

Pela primeira vez na vida cedi ao impulso sedutor de seguir os meus sonhos, marquei um horário e levei os quadros, ela os elogiou muito.

A mostra foi um sucesso, um professor da universidade comprou um deles e fez questão de conversar comigo, perguntou onde estudei, disse a ele que eu trabalhava em uma corretora da bolsa de valores, chocado ele me deu seu número e me ofereceu a oportunidade de fazer, mesmo que tardiamente a minha faculdade de arte.

Hoje estou na Espanha, estou de all star, uma camiseta e jeans sentada em uma praça de Madri com meu cavalete pintando uma fonte. Tenho 39 anos e sou professora da universidade, tenho um contrato com o ateliê da minha amiga, vendo meus quadros que estão ficando cada dia melhores, meu primeiro contracheque eu enviei para minha mãe com um bilhete escrito "Fique com este dinheiro, ganho com a minha profissão de vagabundo". Ela me ligou depois e pediu desculpas, meus ex colegas da bolsa, hoje percebem que eu tenho um coração afinal e admiram meus quadros, inclusive, já até vendi alguns para eles. 

Estou no topo do mundo, ainda não ganho o mesmo salário de quando era gerente, mas a alegria de fazer o que gosto cobre qualquer oferta de trabalho que já recebi.

Só posso dizer o quanto valeu a pena aquele breve impulso, como seguir meu sonho me completou e o quanto amo o que faço.

Siga seus sonhos também!

Dias Perfeitos - Raphael Montes

Oi pra você! 

Hoje temos resenha de livro!

Esse livro é fruto da cabeça levemente peculiar de Raphael Montes, então podemos esperar muitas cenas que vão te fazer parar olhar pro nada e dizer "Oi? O que acabou de acontecer aqui?" Porque é assim que você se sente lendo os livros desse autor.

Digamos que seja uma história de amor, o cara se apaixona pela moça, ela faz jogo duro, ele bater com livro na cabeça dela, mete a guria em uma mala e sequestra ela na vibe "só te libero quando você me amar". Não é fofo? É eu sei que não é...

Dias Perfeitos - Raphael Montes

A história é bem contada, apesar de parecer bastante improvável, é bem verossímil. A proposta do protagonista é demonstrar seu amor e ser correspondido e as coisas que ele faz são bizarras, mas na cabeça dele ele está sendo bom pra ela.

Não preciso dizer que o Téo é perturbado né? Ele é um estudante de medicina, é um rapaz bem apessoado, educado, mas completamente maluco. O que eu mais gosto é ele não demonstrar ser uma maluco, ele faz as coisas de um modo tão justificado, sendo tão correto que você fica achando ele uma pessoa horrível, mas ele raramente sai do sério e trata a Clarice "bem" do jeito esquisito dele.

Já a Clarice é uma personagem que começa como uma mulher cheia de personalidade, daquelas que faz o que quer e se mete com coisas com as quais não deveria. Confesso que achei ela chatinha e por isso não tenho tanto dó das coisas que ela passa na mão do Téo.

O restante dos personagens é pano de fundo, não são tão relevantes, mas importam para fazer a história andar. Não posso reclamar de personagens do Raphael eles são muito complexos e bem feitos, deixando o leitor até um pouco confuso como "Téo é mesmo ruim?" ou "Clarice, poxa o cara só quer ser amado, dá uma chance pro moço" sei lá foram pensamentos que eu tive. Acho o Téo horrível, mas no fundo tenho mais dó dele do que qualquer coisa.

Quanto a narrativa e escrita do autor eu sou suspeita a falar porque eu amo Raphael Montes. 

A escrita é ótima, fluida, com nuances pesadas e mais leves, o roteiro é bom, tem algumas resoluções um pouco forçadas, mas funciona no geral, deixa pontas mais soltas, mas são margem para o leitor pensar e remoer o livro depois com  os "e se" que se criam e isso claramente é proposital.

É um autor muito talentoso e faz as histórias mais malucas serem interessantes e isso é um super ponto positivo a meu ver.

O livro para mim é 5 estrelas favorito da vida com coraçãozinho e tudo. Ele é um livro que tem muitas coisa que eu gosto e a principal delas é o final. Não foi surpreendente para mim, mas eu tinha imaginado uma coisa super ousada e o autor foi lá e fez e eu admirei a coragem dele e aplaudi ao virar a última página.

Eu recomendo o livro com certeza, mas gosto de fazer algumas ressalvas. Se gosta de coisas fofas e felizes passe longe, esse livro o sobre um cara transtornado que acha que forçar a sua vontade faz com que a pessoa o ame. É fonte de gatilhos para mulheres vítimas de relacionamentos abusivos. É um livro amargo em certos pontos, tem um final que pode não ser o que você espera, então se é sensível com finais pode se decepcionar.

Em todo caso, a melhor forma de avaliar um livro e lendo e tirando as próprias conclusões. Então, caso queira se aventurar, deixe nos comentários o que achou.